O aprendizado proporcionado por meio do ensino de arte

Conhecimento multidisciplinar e integrado, habilidades socioemocionais, potencial criativo, capacidade de concentração…

Faça uma lista do que é importante para lidar com os desafios do mercado de trabalho e de nossa vida pessoal. O desenvolvimento de todas essas capacidades pode ser potencializado com a arte-educação.

Isso mesmo! Você já parou para pensar que o ensino da arte vai muito além de estética e design?

Tendo em vista a sua relevância para o desenvolvimento infantil, chamamos Clara Gualberto, arte-educadora, pesquisadora de arte-educação e criadora do perfil @acacadoradeideias, para falar um pouco sobre arte-educação e seus benefícios. No texto a seguir, Clara compartilha conosco aquilo que vivencia cotidianamente nas propostas de ateliês com crianças da educação infantil.

O que é arte-educação?

Quando falamos de arte-educação costumamos nos referir às oficinas, aulas especializadas ou momentos específicos separados para a expressão artística. No geral, esses momentos costumam ter duração de 50 minutos por semana e, apesar de já existirem muitas discussões sobre a importância da liberdade de criação, ainda vemos muitas escolas que compreendem a arte como passatempo, com valor meramente recreativo.

Vivemos em um tipo de sociedade que exige, cotidianamente, que separemos nossos sentimentos e emoções do nosso raciocínio e intelecção, seguindo o padrão de separar as “coisas úteis” das “coisas prazerosas”. Sob a ótica de melhorar o desenvolvimento intelectual, muitas crianças vivem em uma grande caixa de Skinner e, preenchidas somente por trabalho utilitários, perdem o espaço pra desenvolver sua criatividade. Nessa perspectiva, a arte-educação é um caminho (e um refúgio) para a formação de seres humanos como eles são: sujeitos emotivos e criativos em busca de múltiplas possibilidades de sentidos.

Por essas e tantas outras razões, gosto de entender a arte como algo indissociável da educação, afinal todo processo de aprendizagem é também um processo criativo. Em seu livro Por quê arte educação?, João-Francisco Duarte Jr. caracteriza a arte-educação como “nada mais do que o estímulo para que cada um exprima aquilo que sente e percebe”, o que nos leva a refletir sobre a necessidade de se fornecer um espaço que encoraja a criatividade e o pensamento individual.

Refletir a arte como processo educativo vai além de ensinar técnicas artísticas; uma educação que contempla o olhar artístico é aquela que tem um cuidado com a estética, que traduz a realidade das crianças, que trabalha com uma pedagogia provocativa, fugindo do esperado e valorizando o pensamento e invenção. Nesse sentido, me parece muito interessante (e ideal) a pedagogia de Reggio Emilia, que tem como uma de suas características a inclusão de ateliês no currículo escolar, considerando as linguagens expressivas tão importantes quanto as disciplinas obrigatórias.

Os ateliês são espaços que aguçam a curiosidade, que disponibilizam a vivência e criação de relações entre o sujeito e os materiais, instigando a observação, pesquisa e construção de pensamentos.

Que habilidades são desenvolvidas com a arte-educação?

Realizar propostas lúdicas, dispor momentos de experimentação de materiais, criar situações de reflexão e apreciação dos trabalhos artísticos e articular possibilidades de exploração das linguagens da arte é fundamental para o desenvolvimento criativo das crianças. Muito além de uma atividade recreativa, a presença da arte alimenta nosso pensamento poético e desperta a curiosidade, além de estimular e desenvolver diversas habilidades essenciais para nossa atuação e compreensão do mundo, como:

Criatividade e imaginação

Para Vygotsky, a imaginação é “uma condição totalmente necessária para quase toda atividade mental humana”, com ela estabelecemos relações entre real e irreal usando a nossa capacidade de refletir, modificar e criar realidades e possibilidades. Não muito distante, a criatividade se relaciona com a habilidade de renovar ideias, conceitos e práticas, estando ambas presentes na nossa vida como caminhos de transformação e tendo os espaços de criação e fruição artística como grande aliados dessa elaboração.

Construir castelos de areia, fazer esculturas de massinha ou argila, criar máscaras e personagens são atividades e brincadeiras que estão conectadas ao mundo do faz de conta. Quando dispomos elementos, cenários e experiências que potencializem o desenvolvimento de roteiros e narrativas favorecemos a imaginação e criação da criança, permitindo que ela crie artisticamente ao mesmo tempo em que expressa e elabora seus sentimentos, pesquisa suas hipóteses e experimenta novas descobertas.

É importante ressaltar que as propostas podem ser feitas com objetivo exploratório, de conhecer os materiais e descobrir seus usos, como também podem ser pautadas por direcionamentos. Uma proposta direcionada que fiz recentemente foi, pensando no contexto do carnaval, instigar as crianças a pensarem nas possibilidades de construção da figura humana. Usando da colagem, cada criança criou livremente a sua “máscara-cabeça” (nome escolhido pela turma) e naturalmente construiu uma história para aquele personagem. Os papeis utilizados na proposta foram cortados previamente em formatos que instigasse a turma, mas a intenção de uso foi definida por cada um dentro do seu processo de criação.

Nas fotos, um exemplo de atividade realizada em ateliê com as crianças, na qual o ato de imaginar e criar é despertado.

Senso estético e organização

Embora pareça ser a mesma coisa, falar de estética não é falar sobre beleza (imagina entrarmos aqui na discussão sobre o que é belo?). Falar de estética é falar sobre atenção, cuidado e sensibilidade com o que se propõe para as crianças. Da mesma forma que nós não gostamos de chegar no trabalho e encontrar livros rasgados e misturados, uma mesa suja e com canetas estouradas, as crianças também organizam melhor as brincadeiras e criações quando encontram elementos que as auxiliam nesse processo. Quando a criança convive com ambientes bem estruturados, montados com harmonia e elementos convidativos, ela passa a internalizar toda a estética por trás desse cenário, tornando-a parte de si.

Dica da educadora: disponha os elementos com os quais a criança irá brincar ou realizar alguma outra atividade lúdica e educativa de forma organizada e esteticamente agradável, isso ajudará a organizar o pensamento e despertar a imaginação das crianças.
Dispor os elementos no espaço é uma forma de criação de estruturas, cenas e enredos.
Dica da educadora: uma mesma proposta pode se desdobrar de várias maneiras diferentes de acordo com a forma que seus elementos são apresentados. Uma das possibilidades é iniciar a brincadeira com apenas alguns objetos e inserir os demais aos poucos, permitindo que a criança incremente suas narrativas ao longo do processo.

Capacidade de concentração e motricidade

A interação dos nossos sistemas em busca de desenvolver um movimento é chamada de coordenação motora. A coordenação motora grossa se relaciona às atividades expansivas como correr, pular e nadar, enquanto a coordenação motora fina diz respeito aos movimentos minuciosos que utilizam dos pequenos músculos das mãos e pés, como desenhar, usar a tesoura e colocar miçangas em um cordão. O da motricidade fina exercita, também, a capacidade de concentração, uma vez que estimula atividades de manuseio mais sutis e precisos.

A concentração é estimulada nas atividades artísticas e no brincar livre, que envolvem manuseio de variados objetos e materiais.

Elaboração do “eu” de forma expressiva e interpretativa

Nós, adultos, muitas vezes buscamos análises conceituais de obras de arte e achamos que isso é o verdadeiro significado de uma tela ou escultura, mas a verdade é que a arte, por si só, é um caminho de autoconhecimento, expressão, compreensão e reinterpretação da realidade. Em relação às crianças, essa rede de sentidos se forma de uma forma muito mais sutil e natural. Quando, por exemplo, recebemos a pergunta “você gostou do meu desenho” e respondemos “sim, ficou lindo!” podemos acabar tolhendo uma série de significados que não sabemos sobre aquela produção. Ao retribuir a pergunta dizendo “você gostou do seu desenho? Tem algo que você gostaria de mudar? Você se divertiu fazendo isso?” ou propondo um diálogo que busque uma reflexão sobre a prática, potencializamos uma maior percepção e atenção aos significados subjetivos e individuais de cada criança.

Percepção dos sentidos

A exploração sensorial está presente em todo processo artístico, o trabalho com materiais de texturas, cores, cheiros e até gostos diferentes, assim como a apreciação de uma música e a consciência corporal estimula a percepção dos sentidos do nosso corpo visão, audição, paladar, olfato e tato. A criança que se habitua ao trabalho sensorial conhece e explora o mundo de diferentes formas, tornando-a capaz de compreender o seu ambiente de forma mais clara.

Dica da educadora: escolher materiais com diversas texturas para as propostas de atividades, especialmente os materiais naturais, enriquece a percepção sensorial das crianças.

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Quando se entra no universo da arte-educação, abre-se um leque de possibilidades com as quais se pode propiciar às crianças atividades que estimulem o desenvolvimento de suas capacidades de forma integrada. E, o que é melhor, com ludicidade e disponibilizando um ambiente que permita a experimentação livre. Mesmo em atividades com propostas mais direcionadas, o ato de elaborar e realizar uma ação diante dos materiais que são disponibilizados, parte da criança.

Na Lume, quando desenvolvemos um brinquedo não estruturado, estamos pensando em propiciar o seu uso como elemento de exploração. Assim, entendemos que a criança é o sujeito ativo dos momentos que vai vivenciar com aqueles objetos. Por isso, são objetos que podem fazer parte de diversas propostas dentro da arte-educação. Conheça mais sobre eles em nosso site.

E, se você gostou desse conteúdo e acha que pode ajudar a inspirar outras pessoas a compreenderem um pouco sobre o universo da arte-educação e a proporem atividades criativas para as crianças, não deixe de passar esse conteúdo adiante.

*As atividades registradas foram realizadas pela educadora no Espaço Corre Cutia (@correcutia), em Belo Horizonte/MG, casa de brincar e escola de ensino regular para o 1° e 2° período. Com uma proposta de valorização da infância, o Corre Cutia promove experiências de arte, cultura, lazer e brincar livre para crianças até 8 anos.